sábado, 17 de junho de 2017

CAPÍTULO XIII - CAPITU

       



De repente, ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao pé:
— Capitu!
E no quintal:
— Mamãe!
E outra vez na casa:
— Vem cá!
Não me pude ter. As pernas desceram-me os três degraus que davam para a chácara, e caminharam para o quintal vizinho. Era costume delas, às tardes, e às manhãs também. Que as pernas também são pessoas, apenas inferiores aos braços, e valem de si mesmas, quando a cabeça não as rege por meio de idéias. As minhas chegaram ao pé do muro. Havia ali uma porta de comunicação mandada rasgar por minha mãe, quando Capitu e eu éramos pequenos. A porta não tinha chave nem taramela; abria-se empurrando de um lado ou puxando de outro, e fechava-se ao peso de uma pedra pendente de uma corda. Era quase que exclusivamente nossa. Em crianças, fazíamos visita batendo de um lado, e sendo recebidos do outro com muitas mesuras. Quando as bonecas de Capitu adoeciam,
o médico era eu. Entrava no quintal dela com um pau debaixo do braço, para imitar o bengalão do doutor João da Costa; tomava o pulso à doente, e pedia-lhe que mostrasse a língua. É surda, coitada!, exclamava Capitu. Então eu coçava o queixo, como o doutor, e acabava mandando aplicar-lhe umas sanguessugas ou dar-lhe um vomitório: era a terapêutica habitual do médico.
— Capitu!
— Mamãe!
— Deixa de estar esburacando o muro; vem cá.
A voz da mãe era agora mais perto, como se viesse já da porta dos fundos. Quis passar ao quintal, mas as pernas, há pouco tão andarilhas, pareciam agora presas ao chão. Afinal fiz um esforço, empurrei a porta, e entrei. Capitu estava ao pé do muro fronteiro, voltada para ele, riscando com um prego. O rumor da porta fê-la olhar para trás; ao dar comigo, encostou-se ao muro, como se quisesse esconder alguma coisa. Caminhei para ela; naturalmente levava o gesto mudado, porque ela veio a mim, e perguntou-me inquieta:
— Que é que você tem?
— Eu? Nada.
— Nada, não; você tem alguma coisa.
Quis insistir que nada, mas não achei língua. Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boca fora. Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador, mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula. Calçava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns pontos.
— Que é que você tem? repetiu.
— Não é nada, balbuciei finalmente.
E emendei logo:
— É uma notícia.
— Notícia de quê?
Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminário e espreitar a impressão que lhe faria. Se a consternasse é que realmente gostava de mim; se não, é que não gostava. Mas todo esse cálculo foi obscuro e rápido; senti que não poderia falar claramente, tinha agora a vista não sei como...
— Então?
— Você sabe...
Nisto olhei para o muro, o lugar em que ela estivera riscando, escrevendo ou esburacando, como dissera a mãe. Vi uns riscos abertos, e lembrou-me o gesto que ela fizera para cobri-los. Então quis vê-los de perto, e dei um passo. Capitu agarrou-me, mas, ou por temer que eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adiante e apagou o escrito. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era.


Machado de Assis 
Machado de Assis



Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

       


Recomendamos para você:


Machado de Assis

Dom Casmurro

Fight Night - Tradução em Português

No Heart - 21 Savage & Metro Boomin

Fight Night - Migos

John Wick - La traducción en español

John Wick - Tradução em Português

John Wick - Migos

Seize The Block - La traducción en español

Magnolia - Playboi Carti

Seize The Block - Tradução em Português

Seize The Block - Migos - The Fate of the Furious

Dab of Ranch - La traducción en español

Dab of Ranch - Tradução em Português

Dab of Ranch - Migos

Cocaina - Tradução em Português

Cocaina - Migos Featuring Young Thug

Cocoon - La traducción en español

Cocoon - Tradução em Português

Cocoon - Migos


Machado de Assis - Crônica

Machado de Assis - A Mão e a Luva

Letras Música - Sanderlei Silveira

Migos - Song Lyrics

Letras Música - Tradução em Português


by Sanderlei Silveira -  http://sanderlei.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário